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Bica dos Marinheiros, por Vieira Fazenda

CARVALHO, José dos Reis. Bica dos Marinheiros.
CARVALHO, José dos Reis. Bica dos Marinheiros. Disponível na Biblioteca Nacional

Teve essa denominação pequeno chafariz situado lá para as bandas dos mangues de São Diogo e Praia de Diogo de Pina (mais tarde Praia Formosa[1]).

Proveio o nome de Bica dos Marinheiros do fato de ser aquele o local, onde vinha a maruja dos navios surtos no porto do Rio de Janeiro fazer provisão d’água.

Hoje, graças aos aterros da Companhia de Melhoramentos, ficou inteiramente modificada a topografia daquela parte da cidade.

Ainda em nossos dias conservou-se por muito tempo a coluna de pedra, último vestígio da pequena fonte, cujas águas foram em princípio aproveitadas e canalizadas pelos Jesuítas, proprietários de todos esses terrenos, desde o rio Catumbi até Inhaúma. Antes de ser concluída a bica em questão, e nos primeiros tempos, iam os marinheiros prover-se de água no Rio Carioca, das Laranjeiras, ou dos Caboclos; por esse motivo, era a praia, hoje do Flamengo, conhecida por Praia da Aguada dos Marinheiros.

Debret, Negros Serradores de Tábuas,
Debret, Negros Serradores de Tábuas, via NYPL

Mais tarde, foi construído o Chafariz da Junta do Comércio, no ponto em que está hoje a Secretaria da Marinha, antiga Praia de Braz de Pina.

Como é sabido, o primitivo chafariz do Largo do Carmo foi construído por ordem de Gomes Freire de Andrade no centro da praça, de onde foi removido pelo vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa ao construir o belíssimo cais que durou até meados do século passado, para junto do mar, modificando-a completamente. No paredão do cais foram colocadas grossas bicas de bronze, para provimento d’água aos navios.

Conquanto, em virtude dessas modificações, tivessem os marinheiros de todo abandonado a bica em questão, conservou ela sempre o nome, servindo por longo espaço de tempo para uso e gozo dos moradores de São Diogo e adjacências.

No sítio da Bica dos Marinheiros esteve acampado o Arariboia, com os seus companheiros, antes de tomar posse das terras de São Lourenço, a ele cedidas por Antônio de Mariz. Por ocasião da invasão francesa de Duguay-Trouin, o sítio da Bica dos Marinheiros foi cenário de notável encontro entre os Franceses e os nossos comandados pelo bravo Bento do Amaral. À Bica, ainda se prendem recordações históricas das rusgas e motins havidos no tempo da Regência, após a revolução de 7 de abril.

Debret, Barbeiros,
Debret, Barbeiros, via NYPL

Nas proximidades da Bica dos Marinheiros existiram sempre armazéns de materiais e madeiras. A estampa representa um desses toscos e primitivos aparelhos de serrar, ainda em uso no interior do país, em falta de outros mais modernos e perfeitos, constituído por pesados cavaletes, sobre os quais era colocada a couçoeira que devia ser aproveitada, mediante longa serra manejada por dois indivíduos, um colocado na parte superior, e o outro na inferior; o primeiro ficava sempre de melhor partido e daí a origem de conhecido provérbio popular.

Ponto isolado da cidade, longe das vistas da Polícia, era a Bica dos Marinheiros frequentada por vagabundos, malfeitores, mendigos, quitandeiras e barbeiros ambulantes.

O desenho reproduz como felicidade com fidelidade alguns desses tipos, sobressaindo o do barbeiro negro, escanhoando os queixos do freguês, ao ar livre.

Em geral, o barbeiro ambulante era escravo, e ao seu senhor cabiam os proventos da profissão.

Havia peritos sangradores e aplicadores de ventosas, sendo muitos deles aprovados pela Junta do Proto-Medicato. Faziam parte da célebre música que, em palanques adrede construídos, tocava às portas das igrejas durante as festividades religiosas.

O Largo da Sé, a Praia do Peixe, o Largo do Rocio e a Bica dos Marinheiros eram os pontos preferidos pelos barbeiros ambulantes, para exercerem a sua profissão ao ar livre. Na obra de Debret há estampas, que melhor representam o assunto, do qual por vezes se têm ocupado escritores nacionais.

Nota

  1. Atual Rua Pedro Alves em Santo Cristo. Fonte: Cruls, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro: Notícia histórica e descritiva da cidade. Prefácio de Gilberto Freyre, desenhos de Luis Jardim e fotografias de Sascha Harnisch. Rio de Janeiro: José Olympio, 1949. 2 v. (Edição do IV Centenário, 1965)..

Fonte

Livro digitalizado

Imagem destacada

Mapa - Bica dos Marinheiros