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Canal do Mangue, por Charles Julius Dunlop

Canal do Mangue
Canal do Mangue via Biblioteca Nacional

A PALAVRA “mangue” significa uma planta da família das mirtáceas – a “Eugênia Nítida”. Por extensão, passou-se a chamar “mangue” a todo o alagadiço em que vegeta essa planta.

No Rio de Janeiro, deu-se o nome de Mangue ao imenso pântano que se estendia do Rocio Pequeno (depois Praça Onze de Junho) para cima.

Desde o tempo de D. João VI, houve a ideia de se abrir um canal através deste vasto brejal, até à antiga Praia Formosa(1), para sanear um pouco essa zona, que era um foco de infecção de mosquitos e de exalações desagradáveis. Mas nada se fez: construiu-se unicamente um longo e estreito aterro para passagem das carruagens do monarca e dos fidalgos, que, com frequência, se dirigiam ao Paço Real, na Quinta da Boa-Vista, em São Cristóvão.

Por esse caminho, que se chamou “do Aterrado”, levantou o então Intendente Geral de Polícia, a quem estava afeto o serviço de iluminação da Corte, umas colunas de pedra, distantes 100 passos umas das outras, nas quais foram suspensos grandes lampiões de óleo de baleia. Daí a denominação de Caminho das Lanternas, como, durante muitos anos, ficou conhecida a antiga Rua Senador Euzébio, que também se chamou São Pedro da Cidade Nova, por achar o povo que ela não passava de prolongamento da rua que tinha esse nome na parte antiga da cidade (atual lado par da Avenida Presidente Vargas).

Em 1835, resolveu o Governo Imperial acabar com aquela vasta superfície alagada, reduzindo-a a um estreito canal que recebesse as águas pluviais e a dos riachos da redondeza. Só em 1857, porém, isso se realizou: Irineu Evangelista de Sousa (depois Barão e Visconde de Mauá) obteve a concessão para construir, por administração, esse canal, cuja pedra fundamental foi lançada no dia 21 de janeiro.

Canal do Mangue
Canal do Mangue

Transcorridos três anos, inaugurou-se, a 7 de setembro de 1860, o Canal do Mangue, que custou 1.378 contos de réis, tendo sido as obras dirigidas pelo engenheiro inglês William Gilbert Ginty.(2)

Seu objetivo era, não somente secar os terrenos circunvizinhos, como também permitir navegação a pequenas embarcações que trouxessem gêneros até à cidade; mas, no fim de alguns anos, os resíduos da Fábrica de Gás, o lodo e o cisco obstruíram essa obra, reduzindo-a a um depósito de lama e de imundícies.

Estendia-se o Canal do Mangue do Rocio Pequeno à Ponte do Aterrado (ou “dos Marinheiros”, como ficou depois conhecida). Somente em 1876 foi completado o seu acabamento, com a colocação de uma comporta junto à ponte, o assentamento do gradil de ferro e a arborização das alamedas marginais, onde foram plantadas cerca de 700 palmeiras.

Finalmente, no quatriênio do Presidente Rodrigues Alves (1902 – 1906), o vasto plano de obras do Cais do Porto exigiu o prolongamento do Canal até ao mar. Foi esta uma das grandes realizações do Ministro da Viação, Dr. Lauro Müller, pois acabou com o alagadiço das antigas praias Formosa e dos Lázaros, saneou e tornou utilizável enorme extensão de terra e pôs fim às constantes enchentes provocadas pela inundação dos rios Comprido, Trapicheiro, Maracanã e Joana.

Conforme se sabe, desde os primeiros tempos da fundação da cidade do Rio de Janeiro, estavam seus moradores habituados a utilizar-se dos mangues, fonte inesgotável da natureza, criada para aliviar a miséria da pobreza, pois, com exuberante fecundidade, subministrava, sem trabalho, o marisco das ostras, as moreiras, os caramurus, os caranguejos e siris, a lenha e madeira para suas choças.

Notas do editor

  1. Atual Rua Pedro Alves em Santo Cristo. Fonte: Cruls, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro: Notícia histórica e descritiva da cidade. Prefácio de Gilberto Freyre, desenhos de Luis Jardim e fotografias de Sascha Harnisch. Rio de Janeiro: José Olympio, 1949. 2 v. (Edição do IV Centenário, 1965).
  2. Decreto nº 3.485, de 21 de Junho de 1865 - Concede a William Gilbert Ginty privilegio por dez annos para usar, no Municipio neutro e Provincia do Rio de Janeiro, de um processo, de sua invenção, destinado á preparação da turfa.

Fonte

  • Dunlop, Charles Julius. Rio Antigo. 3ª Tiragem ed. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo, 1963. (Composto e impresso na Gráfica Laemmert, Ltda.).

Texto original

Veja também

Mapa - Canal do Mangue